quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Sobre as noites

Eu acordei suando. Primeiro pensei que já era dia, pois seria impossível fazer tanto calor numa madrugada. Tirei a blusa e deitei no chão empoeirado. Só rolei pro chão, na verdade. Fui afastando o monte de tralhas que eu vou acumulando em volta da minha cama, pra se uma hora precisar. Derrubei minha bolsa aberta e as coisas que vou acumulando dentro dela, pra se uma hora precisar, se esparramaram. Chutei a garrafa de água vazia. Fez barulho. Me perguntei se acordara alguém. Se haveria alguém dormindo. Se haveria alguém. Se seria hora de dormir. Que horas seriam afinal? Tateei a cama e os arredores, revirei os lençóis e os travesseiros, as coisas que caíram da bolsa, procurando o celular. O celular, obviamente estava se escondendo de mim em algum lugar que eu não fosse procurar. Apertei qualquer tecla. 1 ligação perdida. Lembrava remotamente de ter abafado, com irritação, o toque do celular durante o sono. Não quis ver quem era, mas eu sei quem era. O relógio no canto direito inferior marcava 03:04, claro. Suspirei.
Voltei pra cama, me cobri, sentia frio. Como se tivesse me deitado num ringue de patinação e não no chão. Percebi que não ia voltar a dormir. As vezes eu acho que nunca mais vou conseguir dormir. Até que eu durmo. Mas hoje eu não iria dormir. Suspirei.
Procurei minha blusa, vesti, levantei, abri a porta. A casa toda escura. Fui andando pelo chão empoeirado, acendendo as luzes no caminho. Abri a geladeira, parei alguns segundos, procurando algo que não estava lá. Nunca o que a gente procura está na geladeira. Peguei uma garrafa de água. Peguei um copo. Coloquei os dois, o copo e a garrafa, na mesa e me sentei a sua frente.
Eu não enchi o copo. Abracei as pernas e comecei a chorar, mas o choro não vinha, era só um nó na garganta. Nó de quem segura alguma história que não escreveu e não pretende contar.
Pensei em ligar pra quem tinha me ligado e dizer 'Você tá acordado? Eu to muito perturbada. Vem cá?' Mas não ia ligar. Pensei em ligar pra quem sempre me liga nas madrugadas e dizer 'Você tá acordado? Eu to muito perturbada. Vem cá?' Mas não ia ligar.
Então enchi o copo. Bebi a garrafa inteira. E dormi.

Um comentário:

Pedro Paiva. disse...

você sabe que eu iria... sempre.