sábado, 19 de fevereiro de 2011

À Sanidade Mental

com carinho



"é tudo emocional" me disse o médico mais maluco e desorganizado que já vi na minha vida. ele despejou suas teses e dissertações sobre a doença na mesa, mostrou as suas marcas, contou de quando a mãe morreu e ele teve o corpo coberto por elas, me perguntou da primeira vez que eu fiquei assim. Ocasião que eu obviamente lembrava pois estava a beira de um colapso nervoso. Outubro de 2009, no caso.

Assim é com a cara toda empipocada. Chama eczema crônico, é um tipo de dermatite atópica, ele me informou.

Eu lá, esperando que ele me dissesse você é alérgica a [insira aqui algo eliminável] e 'não coma mais sementes de uva' ou 'só use shampoo de carambola' ou melhor ainda 'não lave mais louça'. Mas não, ele disse 'é tudo emocional, é seu organismo reagindo à sua vida e você vai ter isso pra sempre.'
SOU ALÉRGICA A MIM ponto. Olha que interessante. Toda vez que estiver sob fortes emoções terei perebas em volta dos olhos. Super.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Vem 2011.

Tem ferida que nada resolve.
Pode escorrer lágrima, poema.
Pode criar sorriso, casa, poema.
Pode correr o mais rápido que puder.
Pode ocupar a cabeça.
Pode dormir até morrer.
Mas a ferida não cicatriza.

Obrigada 2011 por fazer voltar tudo que eu havia deixado pra trás. Por queimar minha lâmpada, por quebrar minha câmera, por me dar alergia. Que é que falta, hein 2011 pra você arrancar de mim? Vai tornar o lar que eu construí inabitável? Vai fazer as pessoas que eu gosto mentirem pra mim? Vai deixar todo mundo que eu amo em estado miserável? E no fim chacoalhar uma garrafa de vódega na minha frente e dizer: Vem, Iris, vem, que é que aqui que você pertence. Aqui onde nada é real, tudo é perda, tudo é insônia e tudo é derrota. Vem.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Qualquer besteira que me ajude a (ou atrapalhe) dormir

Daí eu folhei os dez dias que faltavam pra acabar a agenda, sentindo o cheiro do alcool do marcador que marcava palavras resignadas no papel.
O livro fechado do lado, marcador de páginas dividindo o livro entre ele inteiro e o último capítulo. Não gosto de acabar livro, fica sensação de vazio, de que quando acabar acaba a história, acaba a tensão, aflição, apego e comoção que ele carregou no resto inteiro.
Mas não era isso que eu queria dizer, nem eram as besteiras que coloquei dispersas na folha de fichário que usava no colégio, enquanto me recusava a ligar computador, ver hora, voltar pra vida real.
Nem sei o que era. Se soubesse acho que me sussurava baixinho depois de acabar o livro, apagar a luz; antes de dormir. Mas não sabendo o que dizer pra mim mesma, pra me confortar, comecei a escrever qualquer coisa que pudesse me dizer. Não sei o que dizer pra me fazer dormir.
Não me vou ler uma historinha, não vou ficar mexendo no cabelo esperando o sono vir, não vou cantarolar qualquer canção que me faça alegre (alegre não, que também é exagero, alegrinha). Não vou me fazer dormir, não preciso disso.
Mas você acordada também é um porre né Iris, dorme logo e cala a boca, por favor.
Mas já tá cedo, já é claro. Que merda Iris, não podia inventar pra você mesma que sono é sagrado, que insônia não é saudável, que começar livro as 4 da manhã não dá certo, que luz acesa a noite inteira e corpo inerte o dia inteiro não pode fazer nada bem.
Não, não podia.
Não consigo dormir, Iris, que que eu faço?

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Princesa (de cantada de caminhoneiro mesmo)

Este texto é um elogio. E dialoga com este do Pedro, e este meu.

Lá pelas tantas desse ano, não sei se começo ou meio, meados então, a Fergo, empresa que fazia o transporte da minha casa para a minha casa perdeu a concessão da linha. Não sei detalhes, só boatos. Mas o fato é que não é mais a Fergo que me transporta, é a Princesa.
Desde então venho testemunhando várias diferenças. Nunca vi um motorista da Princesa ser xingado por um passageiro, tratado com impaciência pelo moço do guichê, ou proferir as frases "por favor, não reclame comigo, a culpa não é minha" ou "meu salário está atrasado". Nunca entrei num ônibus vomitado ou deparei com uma baratinha perambulando entre as poltronas. Nunca testemunhei atrasos, defeitos que impossibilitassem a continuação do percurso ou falhas na condução. Entre os outros passageiros, sequer ouvi uma só reclamação.
Todos esses detalhes que parecem básicos e óbvios para quem já esperou pelo ônibus lendo no verso da passagem os direitos do passageiro, na Fergo não eram. Não mesmo.

Então hoje aconteceu o motivo do meu elogio.
Na parada em Echaporã, tenho a impressão de que todos habitantes quiseram embarcar no mesmo ônibus. Se não foram todos pelo menos metade. E se não foi metade foi muita gente. Tanta gente que já não dava pra enxergar pelas janelas.
A primeira surpresa foi quando na segunda parada depois da rodoviária, o motorista parou no ponto em frente ao posto e disse a quem esperava. "Perdão, mas eu não tenho condições de deixar vocês subirem no ônibus. Já tem gente demais."
Digo, foi surpreendente pra quem já viu tanta gente dentro de um Fergo que desconhecidos já estavam sentando um no colo do outro, pra quem já ouviu mais de 30 pessoas sugerindo, vamos descer e empurrar, na tentativa de transpor os aclives.

A surpresa maior, emocionante mesmo, foi quando depois de alguns quilômetros rodados (2 páginas do meu livro, pra ser mais inexata) o motorista encostou o ônibus no acostamento e anunciou: "Quem está de pé pode descer e esperar um pouco que outro carro já está vindo"

Pasmem, minha nova empresa de ônibus respeita os indivíduos.

sábado, 6 de novembro de 2010

24 de agosto de 2002

Sexta série. Aula de biologia. Nem frio nem calor. Blusa do uniforme, calça jeans e colar de pentagrama. Meus coleguinhas de sala nunca gostaram muito de mim, e a recíproca é totalmente verdadeira. Sentada na 3a fileira, 2a coluna mais perto da porta, na 2a sala do corredor. Quando um menino, que eu particularmente detestava, sorrateiramente pegou minha agenda debaixo da carteira. -Fico puta com essas coisas.- Toca o sinal do intervalo. Grupinhos se formam. Eu pego um livro da mochila. Brumas de Avalon, acho. Um giz acerta minha cabeça. (daí eu fui pro Sírio Libânes para fazer uma tomografia e tirei 24h de descanso - há - brinks) Intempestivamente me levanto. Veio do mesmo lado que o menino anteriormente citado. Ando até o grupo e estapeio a cara dele. Ele devolve o tapa. Eu chuto sua canela. Ele devolve o chute. Eu empurro ele. Ele devolve o empurrão. Nesse ponto a escola inteira já assistia a cena pela janela gritando hey-hey-hey, todas as carteiras ao redor já estavam esparramadas pelo chão, meu fichário do Harry Potter já estava sob os escombros de carteiras e o inspetor já estava na porta pra nos levar até a diretoria.

Foi legal. Foi quando eu entendi o tal conceito de bullying. Virou amigo meu, me acompanhou de perto até a formatura do colegial. O bullying e o menino com quem troquei tapas.
Naquele mesmo ano fiz uma lista das pessoas de quem eu deveria me vingar -provando mais uma vez meu temperamento escorpiano.

sábado, 30 de outubro de 2010

duas 'etnografias'

Sábado fui numa festa de 15 anos. Segunda fui numa festa de 4 anos.

A de sábado, na verdade, nem era um aniversário. O dono da festa aniversariou seus 15 anos em dezembro do ano passado. Mas vinha preparando essa comemoração talvez desde aquela época. Um desses jovenzinhos que, embora não mantenham a mensalidade do colégio em dia, acham de extrema importância demonstrar ostentação a seus coleguinhas, oferecendo bebidas sofisticadas preparadas por bartenders musculosos à menores e chamando-os para a pista de dança, onde se quebram copos e esfregam corpos ao som dessas coisas que se toca hoje em dia, Lady Gaga suponho. Enquanto a família, reunida em volta da mesa de frios, observa enquanto as meninas, vestidas de maneira muito semelhante (não pude deixar de notar que a maioria pegou uma saia curta e puxou-a pra cima dos peitos passou a intitulá-la vestido) sobre saltos bastante altos, circulam explorando a fauna masculina fingindo-se de excessivamente alcoolizadas. E vice-versa (sobre meninos correndo, literalmente, em busca da fauna feminina).
Muito peculiares, os jovens de hoje.

A festinha de segunda acontecia na escolinha. O aniversariante era meu irmão. 10 crianças de 2 a 4 anos comiam salgadinhos (digo, davam uma mordida e retornavam a massa mastigada à bandeja), bebiam refrigerante (digo, derrubavam-o sobre a toalha de mesa), conversavam entre si e faziam fila pra subir no tobogã. Estas interagem com muito mais facilidade entre si e com os desconhecidos (eu, no caso) do que os jovens citados anteriormente. As meninas brincavam de fazer penteado e diziam que estavam se preparando para um casamento. Apontavam uma menina para ser a noiva, e outro menino para ser o noivo. O noivo escolhido dizia que não poderia se casar, porque seria dentista. Outro menino dizia que seria médico e pegava um chinelo, que serviria de bisturi e começa a simular um corte na barriga de uma menina deitada, enquanto dizia que estava fazendo um parto muito complicado, pois o bebê estava muito fundo. O tal obstreta, anteriormente, havia experimentando um a um o sapato de todas outras crianças, espalhados pelo cimento. Após cantar parabéns e comer os docinhos (digo, remexerem com o garfinho plástico no pedaço de bolo e devorarem os brigadeiros), foram todos de volta pra sala de aula, onde se espalharam deitados no colchão e no tapete para descansar de tamanha diversão. Os familiares do aniversariante, como é de praxe permaneceu sentada em meia-lua comentando sobre o calor que os acometia. Menos meu pai que puxou papo com as crianças e recolheu o lixo do chão, minha irmã que se manteve num canto, e minha mãe que estava ocupada servindo as crianças e posteriormente, escorregando no tobogã.
ps: na hora do parabéns, digo, no 'com quem será' a professora que estava guiando a brincadeira perguntou "quem vai casar com o Gregório?" e um dos meninos prontamente levantou a mão dizendo "eu, eu, eu!" a professora retrucou "não, você não pode" e ninguém mais queria casar com o Gregório. "melhor, né mãe?" a professora ironizou sorrindo para minha mãe.
Muito peculiares, as crianças de hoje.
Os adultos também, afinal de contas.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

You are

You are not possesed and you are not almost dead
This games that you play are all in your head.

You're not Vincent Price. You're Vincent Malloy.
You're not tormented or insane. You're just an young boy.

You're seven years old and you're my son.
I want you to get outside and have some real fun.


Um pouco de melancolia dramática não faz mal a ninguém.
Alguns copos de vinho e alguma abstração também não.

obs: assistam o curta, ele é mesmo bom.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O amor é gelo que derrete sem se ver.

É verdade.
O que era um congelador descongelado foi se enchendo de gelo e de gelo e de gelo e de mais camadas de gelo. Até que o vazio se encheu de gelo. Não feliz com a falta de espaço, pode-se tentar tirar a geladeira da tomada. Imaginando que sem energia isso pare de crescer. Mas o gelo derrete. E vai inundando a geladeira, e a cozinha. E quando se percebe tudo está gelado. Todo milimetro cúbico de epiderme está gelado e cada folículo epitelial, também conhecido como pêlo, está arrepiado.
É aí que você é dominada. Pelo gelo.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Para tudo

Pra todo gole de alcóol que desce rasgando a garganta existe uma força que te faz espremer os olhos e engolir.
Pra toda pausa numa caminhada pra observar alguma coisa irreparável existe um pensamento capaz de te prender uns instantes.
Pra todo bom humor matinal existe uma xícara de café e uma vista bonita.
Pra toda falha existe arrependimento.
Pra toda tentativa existe um sorriso.
Pra toda sensação existe uma canção.
E pra toda canção existe um ouvinte.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Incenso, Melão e Poesia

Acendi um incenso de almíscar.
Peguei um pote na geladeira.
Peguei uma fatia de melão no pote.
Sentei na frente do computador,
comendo a fatia de melão.
Li uns versos.
A fatia acabou.
Só a casca melequenta na minha mão.

Peguei um pote na geladeira.
Peguei uma fatia de melão no pote.
Sentei na frente do computador,
comendo a fatia de melão.
Li uns versos.
A fatia acabou.
Só a casca melequenta na minha mão.

Peguei um pote na geladeira.
Peguei uma fatia de melão no pote.
Sentei na frente do computador,
comendo a fatia de melão.
Li uns versos.
A fatia acabou.
Só a casca melequenta na minha mão.

Peguei um pote na geladeira.
Peguei uma fatia de melão no pote.
Sentei na frente do computador,
comendo a fatia de melão.
Li uns versos.
A fatia acabou.
Só a casca melequenta na minha mão.

Só a casca melequenta na minha mão.
E a fumaça do incenso de almíscar.
E a vida esperando. Me esperando.